Introdução
Porra, você toca a mesma cifra do mesmo jeito desde o dia em que aprendeu a música. C, Am, F, G7, C, Am, F, G7. A mão sabe de cor, o ouvido enjoou e a banda inteira já percebeu o bocejo. Aí você tenta trocar um acorde, a melodia bate de frente e você volta para a cifra original com cara de zé ruela que quebrou o brinquedo.
Reharmonizar é isso: trocar os acordes que ficam embaixo de uma melodia, mantendo a melodia no lugar. Não é inventar moda. É escolher outro acorde que carregue a mesma nota cantada e leve a música para outro lado. Por isso a pergunta certa nunca é “qual acorde fica chique?”. É “qual acorde segura essa nota?”.
Além disso, você já tem as peças. O campo harmônico deu a família, as tétrades deram a sétima e o ii-V-I deu o caminho mais batido. Aqui elas viram ferramenta. No fim você troca acordes de uma cifra simples, na guitarra e no baixo, em três camadas de risco, sem a melodia reclamar.
Por Que a Cifra Cansa

A mesma fila de acordes para sempre
Cifra é um mapa, não uma sentença. Quem escreveu a cifra do cancioneiro tinha que caber em uma página e em poucos acordes de violão, então escolheu o caminho mais curto. Esse caminho serve para cantar junto na roda. Já para tocar a mesma música dez anos seguidos, ele cansa.
Então o ouvido pede variedade, só que ele não sabe pedir direito. Ele fala “está sem graça”, e você sai trocando acorde no escuro. Metade das trocas soa errada, você conclui que reharmonizar é coisa de jazzista e desiste. A saída é trocar com critério, e o critério cabe em poucas regras.
Reharmonizar não é trocar por trocar
Troca boa tem motivo. Pode servir para dar mais movimento ao baixo, criar uma tensão antes do refrão ou só mudar a cor do mesmo acorde. Troca ruim é aquela que você fez porque achou o nome bonito. Reharmonização não é decoração. É escolher outro acorde com o mesmo papel, ou com um papel vizinho, e conferir se a melodia continua dizendo a mesma coisa.
A Melodia Manda

A nota da melodia tem que caber no acorde novo
Esta é a regra de ouro, e quase todo erro vem de ignorar ela. A melodia não muda. Então cada nota cantada, principalmente as longas e as que caem no tempo forte, precisa fazer sentido dentro do acorde novo. O melhor cenário é a nota ser fundamental, terça, quinta ou sétima do acorde. O cenário aceitável é ela ser uma tensão que soe bem, como a nona.
Por exemplo, a melodia sustenta um Mi em cima de um C. Mi é a terça de C. Se você trocar C por Am7, o Mi vira a quinta de Am7 e continua confortável. Se trocar por Em7, o Mi vira a fundamental. Os três acordes seguram a nota. Agora, se você troca por Dm7, o Mi vira a nona, que soa bem, mas já é uma cor mais forte.
A nota evitada: o Dó sobre o Em7
Aqui mora o tropeço clássico. Dó e Em7 parecem primos, porque Em7 é Mi, Sol, Si, Ré. Só que a melodia canta Dó. Dó fica a meio tom do Si, que é a quinta do Em7. Meio tom sustentado contra uma nota do acorde raspa no ouvido, como duas cordas vizinhas tocadas juntas e desafinadas.
Por isso Em7 segura um Mi, um Sol, um Si ou um Ré na melodia, mas não segura um Dó parado. Os músicos chamam isso de nota evitada. O que importa para você é o hábito: antes de trocar, olha a nota de cima.
O teste em três perguntas
Antes de tocar a troca, faça estas três perguntas, nesta ordem:
- Qual é a nota da melodia neste compasso, principalmente a mais longa?
- Ela é fundamental, terça, quinta ou sétima do acorde novo?
- Se for outra coisa, ela fica a meio tom de alguma nota do acorde?
Se a resposta da terceira for sim, troque de acorde. Não adianta insistir. Aliás, o ouvido avisa antes da teoria: se a nota ficou áspera, ela está áspera.
Troca Diatônica: o Acorde Primo

Tônica, subdominante e dominante
A troca mais segura é a que fica dentro do tom, porque todas as notas continuam sendo da escala. Cada acorde do campo harmônico tem um papel. Os acordes de tônica dão repouso, os de subdominante dão um passeio e os de dominante pedem para voltar. Troca diatônica é trocar um acorde por outro do mesmo papel.
Em Dó maior, o mapa fica assim:
- Tônica: C, Em e Am
- Subdominante: F e Dm
- Dominante: G7 e Bm7b5
As notas em comum conferidas em Dó
A confirmação é simples e confere nota por nota. C é Dó, Mi, Sol. Em é Mi, Sol, Si, então os dois dividem Mi e Sol. Am é Lá, Dó, Mi, então C e Am dividem Dó e Mi. F é Fá, Lá, Dó e Dm é Ré, Fá, Lá, então eles dividem Fá e Lá.
Quanto mais notas em comum, mais suave a troca. O caso do dominante é o mais bonito. G7 é Sol, Si, Ré, Fá. Bm7b5 é Si, Ré, Fá, Lá. Os dois dividem Si, Ré e Fá. Na prática, Bm7b5 é um G9 sem a fundamental. Quem tem o baixo tocando Sol embaixo ouve um G9 e ninguém percebe a troca.
O baixo avisa quando a troca virou outra música
Quando o baixo muda de nota, a música muda de endereço. Trocar C por Am mantém a melodia e muda o chão: o acorde passa a ter Lá embaixo, e a sensação fica mais melancólica. Isso pode ser exatamente o que você quer. Só não é verdade que ninguém percebe. O baixista percebe, e a plateia sente.
Para ouvir a diferença sem a bagunça, repara como maj7, menor 7 e dominante mudam a cor de um mesmo trecho. Reharmonizar é, em boa parte, escolher a cor certa para a mesma nota.
Dominante Secundário e Dominante Substituto

O A7 que empurra o Dm
Dominante secundário é um dominante que não aponta para a tônica, mas para outro acorde do tom. Antes do Dm, coloque o A7. A7 é Lá, Dó sustenido, Mi, Sol. O Dó sustenido sobe meio tom até o Ré, que é a fundamental do Dm. Essa subida é o empurrão.
Assim, em vez de C, Am, Dm, G7, você toca C, A7, Dm, G7. Trocou só o Am por A7, e o Dm ganhou uma entrada com direção. Além disso, a melodia que sustentava Mi continua tranquila, porque Mi é a quinta do A7.
O Db7 que divide a terça e a sétima com o G7
Agora o truque que parece mágica e é só aritmética. G7 tem Si e Fá. Db7 (Ré bemol com sétima) é Réb, Fá, Láb, Dób. Dób é a mesma nota que Si. Então Db7 também tem Fá e Si, só que invertidos: no G7, Si é a terça e Fá é a sétima; no Db7, Fá é a terça e Si (escrito como Dób) é a sétima.
Como as duas notas que definem o dominante estão lá, o Db7 faz o papel do G7. Esse é o dominante substituto de trítono, porque Sol e Réb ficam a um trítono de distância, seis semitons. Para usar sem susto, confere a melodia. Uma melodia em Si cai bem, porque vira a sétima do Db7. Uma melodia em Ré, que é a quinta do G7, vira Ré contra Réb e soa torta.
A descida de meio tom até o Dó
A graça do Db7 está no baixo. Em vez de Ré, Sol, Dó, o baixo desce Ré, Réb, Dó, e o último passo é de meio tom. O ouvido interpreta como uma resolução mais suave e mais sofisticada. Essa descida é o som do jazz, e também o som de muita bossa. A harmonia da bossa nova vive de movimento assim.
Empréstimo Modal: o Acorde que Vem do Menor

O Fm dentro de Dó maior
Empréstimo modal é pegar um acorde emprestado do tom menor de mesmo nome. Dó menor tem Fm como quarto grau. Dentro de Dó maior, o F é maior. Quando você troca F por Fm, está pegando o acorde do vizinho. Fm é Fá, Láb, Dó. O Láb é a única nota de fora do tom, e é ela que dá a cor.
A sensação é de uma nuvem passando. A música estava ensolarada, o Fm escurece por um compasso e o C seguinte volta com a luz. Por isso esse acorde costuma aparecer antes de um fim de frase, para dar peso ao retorno.
O caso de Creep
Quer um exemplo conferível? Creep, do Radiohead, anda em Sol maior com G, B, C, Cm. O C é o quarto grau normal. O Cm é o quarto grau emprestado do Sol menor. A música inteira vive desse escurecimento depois do acorde claro. É empréstimo modal tocando em rádio.
Quando o Lá natural da melodia bate
O risco é o mesmo de antes. Se a melodia canta Lá natural no compasso do F, trocar por Fm coloca um Láb de acorde contra um Lá de melodia. É meio tom de choque sustentado. Então, antes do Fm, olha se a melodia canta Fá, Dó ou Ré, que cabem. Se ela canta Lá, fique no F.
Além disso, vai com calma. Empréstimo modal é tempero forte. Um por trecho já muda o clima, e dois seguidos já mudam a música.
No Braço: Guitarra e Baixo

Voicings que descem uma casa de cada vez
Teoria sem mão é só intenção. Veja a troca final, Dm7, Db7, Cmaj7, em acordes de cinco cordas, com a corda Lá como fundamental:
Dm7 x57565
Db7 x46464
Cmaj7 x35453
Confere as notas, sem acreditar em mim. Dm7 é Ré, Lá, Dó, Fá, Lá. Db7 é Réb, Láb, Si, Fá, Láb, onde o Si faz o papel de Dób. Cmaj7 é Dó, Sol, Si, Mi, Sol. Cada acorde fica a uma casa do anterior, a mão quase não sai do lugar e o ouvido escuta uma descida contínua.
Os outros acordes do exercício continuam nos desenhos que você já conhece:
Cmaj7 x32000
Am7 x02010
A7 x02020
G7 320001
A linha do baixo na corda Lá
Baixista, é aqui que a sua ficha cai. A reharmonização é quase toda sua. Na corda Lá, o Ré fica na casa 5, o Réb na casa 4 e o Dó na casa 3. Uma casa por compasso, descendo, e a música muda de cara sem o resto da banda mexer no que toca.
No baixo de quatro cordas e na guitarra, a corda Lá é a mesma, então a linha é a mesma. Se o seu baixo tem cinco cordas, a conta continua valendo. Quer mais ideias de linha entre os acordes? Aprende a criar sua linha de walking bass e você passa a reharmonizar pelo baixo.
Por que o baixo decide o clima
O ouvido escuta a nota mais grave como o nome do acorde. Se o baixo toca Ré embaixo de um acorde que a guitarra chama de F, o ouvido entende Dm7. A guitarra pode manter a mão igual, e o clima muda só porque o baixo trocou de nota. Por isso, em banda, combina antes: quem está trocando o quê.
Erros que Deixam a Música Irreconhecível

Trocar sem olhar a melodia
É o erro número um. A pessoa copia uma lista de substitutos, joga na cifra e nem canta a melodia por cima. Resultado: choque a cada dois compassos. Cantarolar a melodia enquanto toca o acorde novo custa dez segundos e salva a música.
Encher toda barra de acorde novo
Um acorde diferente por tempo, em toda a música, vira colcha de retalhos. A reharmonização funciona quando alguns pontos mudam e o resto fica de pé, para o ouvido ter onde se apoiar. Escolhe os pontos de ouro, normalmente o fim de frase e o compasso antes do refrão, e deixa o resto em paz.
Esquecer o baixo
Você trocou o acorde e o baixista continuou tocando a fundamental antiga. Agora a harmonia saiu bonita no papel e feia no som. Quando o acorde muda de fundamental, o baixo precisa saber. Quando o acorde muda só de cor, o baixo pode ficar parado de propósito.
Reharmonizar o que já está cheio
Alguns trechos já têm acordes demais, melodia agitada ou arranjo apertado. Reharmonizar ali é jogar tinta em parede que já está pintada. Dê preferência a trechos longos e parados, com um acorde por compasso ou menos.
Perguntas Frequentes

Reharmonização é só para jazz?
Não. Rock, MPB, sertanejo e pop usam essas trocas. O Fm de Creep é empréstimo modal em rock. A bossa nova usa dominante substituto com frequência. O jazz só virou a escola mais conhecida porque anotou tudo.
Preciso saber acorde com tensão antes?
Ajuda, mas não é pré-requisito. A troca diatônica e o A7 usam só tríades e sétimas. Quando quiser colorir o acorde, o guia de acordes com tensão mostra a nona, a décima primeira e a décima terceira.
Dá para reharmonizar música de iniciante?
Dá, e é um bom treino. Músicas com três ou quatro acordes têm espaço de sobra. Escolha uma cifra que você toca de olho fechado e mexa em um compasso só. Se você ainda se confunde com a diferença entre tríade e tétrade, passe antes pelos erros de tríades e tétrades.
Quando parar de trocar?
Quando a melodia deixar de ser a protagonista. Se quem escuta repara no acorde e esquece de cantarolar, você passou do ponto. Reharmonização boa serve a melodia, não disputa com ela.
Exercício: Quatro Compassos em Três Camadas

Metrônomo a 72, um acorde por compasso, quatro tempos cada. Nada de pular camada. Se a primeira não sai limpa, a terceira só vai embolar.
A melodia e a cifra original
A melodia tem quatro notas longas, uma por compasso: Mi, Mi, Lá, Si. A cifra original é esta:
C | Am | F | G7
Canta ou assobia a melodia em cima, uma nota por compasso. Mi é a terça de C e a quinta de Am. Lá é a terça de F. Si é a terça de G7. Toda nota está dentro do acorde. Esse é o ponto de partida.
Primeira camada, troca diatônica
Troque C por Cmaj7, Am por Am7 e F por Dm7. A cifra vira:
Cmaj7 | Am7 | Dm7 | G7
Confere a melodia. Mi continua dentro de Cmaj7 e de Am7. Lá é a quinta de Dm7. Si continua a terça de G7. O F virou Dm7, que divide Fá e Lá, e nada reclamou.
Segunda camada, o A7
Agora troque o Am7 por A7. A cifra fica:
Cmaj7 | A7 | Dm7 | G7
Mi é a quinta do A7, então a melodia segue segura. Toca o A7 e ouve o Dm7 chegando com mais direção. É o dominante secundário trabalhando.
Terceira camada, o Db7
Por fim, troque G7 por Db7:
Cmaj7 | A7 | Dm7 | Db7
A melodia continua em Si, que agora é a sétima do Db7 (escrita Dób). Toca Dm7, Db7 e volta ao Cmaj7 com os desenhos x57565, x46464 e x35453. O baixo desce Ré, Réb, Dó, casas 5, 4 e 3 da corda Lá.
Grava a primeira camada e a terceira e ouve em sequência. Se você consegue dizer, com sinceridade, que a melodia continua sendo a mesma, a troca funcionou. Se a Si soou áspera, volta ao G7 e confere se a mão não escorregou de casa.
Conclusão
Reharmonizar é trocar o acorde sem trocar a melodia. A nota cantada manda, e o acorde novo precisa carregá-la como fundamental, terça, quinta, sétima ou tensão que soe bem. A troca diatônica é a mais segura, o dominante secundário dá direção, o dominante substituto desce meio tom no baixo e o empréstimo modal escurece o clima por um compasso.
Mais importante, o critério é sempre o mesmo: cantarolar a melodia por cima do acorde novo. Em Dó, três camadas bastam para provar: Cmaj7, Am7, Dm7, G7, depois o A7, depois o Db7, a 72 bpm, com o baixo na corda Lá. Se a melodia sobreviveu, você reharmonizou. Se ela reclamou, você aprendeu qual regra pulou.
Se o mapa dos acordes do tom ainda escapa, volta no campo harmônico maior. Para ver o dominante levando o baixo ao lugar certo, abre o ii-V-I no jazz. E para encontrar outros caminhos entre os acordes, passa pelas cadências e continua explorando o blog.





