ii-V-I no Jazz: Como Tocar na Guitarra e no Baixo

ii-V-I no Jazz: Como Tocar na Guitarra e no Baixo

Introdução

Você olha a cifra de um standard, vê acorde mudando todo compasso e conclui que jazz é um idioma secreto. Não é, porra. Na maior parte do tempo é o mesmo movimento de três acordes, repetido em tons diferentes, com nome bonito em cima. O nome assusta. O caminho, não.

Além disso, quem já passou pela fórmula dos acordes e pelas cadências já tem as peças. Falta ver a ordem em que o jazz empilha elas: segundo grau, quinto grau, primeiro grau. Esse é o ii-V-I. É a cadência que segura o repertório, do chorus de standard ao trecho que você jurava ser “acorde chique demais pra mim”.

Por isso este guia fica numa coisa só. Você vai montar Dm7, G7 e Cmaj7, ouvir a terça e a sétima caminhando meio tom, pôr um shell voicing na guitarra e uma linha curta no baixo. No fim tem exercício em Dó, devagar, pra resolução aparecer no ouvido antes de aparecer na pressa.

Baixista, fica. Sem a fundamental no tempo 1, a guitarra mais esperta do mundo vira enfeite. A conta é dos dois.

Por Que o Jazz Parece um Acorde Novo a Cada Compasso

Por Que o Jazz Parece um Acorde Novo a Cada Compasso

Primeiro, tira o susto da cifra. Um lead sheet parece lotado porque escreve o acorde inteiro em todo compasso, com sétima e tudo. Rock esconde metade disso dentro do power chord e da pentatônica. Jazz escreve o que está funcionando. Não é que tenha mais harmonia do que a música aguenta. É que a harmonia está visível.

O ouvido não cataloga apelido. Ele cataloga função. Um acorde prepara, outro tensiona, outro descansa. Quando três cifras seguidas fazem isso, você está no ii-V-I, mesmo que o tom tenha mudado e o desenho no braço seja outro. Portanto, memorizar quarenta shapes sem ouvir essa ordem é colecionar figurinha. A música continua passando e você continua caçando a próxima casa.

O ouvido ouve função, não apelido

Em Dó maior, o segundo grau prepara, o quinto empurra, o primeiro chega. Dm7 pede pra sair. G7 pede pra resolver. Cmaj7 senta. Se você já comparou um acorde dominante com um maj7 no texto de harmonia da bossa nova, a sensação é a mesma: dominante quer andar, sétima maior quer ficar. Jazz só usa esse contraste o tempo inteiro, em andamento de standard, com a tétrade escrita na cara.

Então, quando a cifra trocar de Dm7 para G7, não pergunta “qual é o desenho novo”. Pergunta “qual nota desceu meio tom”. Essa pergunta cabe num compasso. A lista de desenhos, não.

Um movimento, dezenas de standards

Autumn Leaves, no tom de Si bemol, abre com Cm7, F7 e Bbmaj7. Isso é um ii-V-I. Não estou te passando a melodia, nem a letra, nem o solo de ninguém. Estou te mostrando três cifras que você já ouviu sem dar nome. O resto do chorus segue passeando, e o mesmo movimento reaparece em outro tom. É assim que standard funciona: o ii-V-I muda de endereço, a lógica fica.

Aliás, por isso jazz rende pauta evergreen. O movimento não sai de moda quando troca o disco. Você aprende uma vez em Dó, transporta a regra, e o Real Book para de parecer dicionário.

O Que o ii-V-I É de Verdade

O Que o ii-V-I É de Verdade

ii-V-I é progressão, não escala. Os algarismos romanos contam grau do campo harmônico. O “ii” minúsculo avisa que o acorde é menor. O “V” maiúsculo avisa dominante. O “I” maiúsculo avisa acorde maior. O hífen só marca a ordem: segundo, depois quinto, depois primeiro.

Em Dó maior, a escala é Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si. O segundo grau é Ré, o quinto é Sol, o primeiro é Dó. Daí saem os três acordes do exercício. Se a fórmula da escala maior ainda balança, volta nela antes de sair transportando este texto pra todo tom que aparecer na cifra.

Os graus no campo de Dó maior

Monta tétrade em cada grau, empilhando terças, que é o mesmo ofício das tríades e tétrades:

  • Dm7, o ii: Ré, Fá, Lá, Dó. Fórmula 1, b3, 5, b7.
  • G7, o V: Sol, Si, Ré, Fá. Fórmula 1, 3, 5, b7.
  • Cmaj7, o I: Dó, Mi, Sol, Si. Fórmula 1, 3, 5, 7.

Repara no que muda de um pro outro. De Dm7 para G7, a fundamental salta de Ré para Sol, uma quarta acima. De G7 para Cmaj7, a fundamental salta de Sol para Dó, de novo uma quarta acima. Quarta pra cima é o mesmo que quinta pra baixo. No baixo, essa quinta descendente (Ré, Sol, Dó, se você preferir oitava grave) é o jeito mais limpo de ouvir o movimento. A guitarra pode soltar a fundamental e ficar com o miolo.

Por que o ii é menor, o V é dominante e o I leva sétima maior

Não é gosto. É o que a escala de Dó oferece em cada grau.

No Ré, a terça que cabe na escala é Fá, meio tom abaixo da terça maior (Fá#). A sétima que cabe é Dó, que está a dez semitons do Ré, sétima menor. Resultado: menor com sétima, Dm7. A quinta é Lá, justa. Guarda isso, porque já já alguém vai querer abaixar essa quinta sem motivo.

No Sol, a terça é Si, maior, e a sétima é Fá, menor. Esse par, terça maior com sétima menor, é a cara do dominante. É o G7. O intervalo entre Si e Fá é um trítono, e é ele que faz o acorde querer resolver.

No Dó, a terça é Mi, maior, e a sétima é Si, maior. A sétima maior não puxa do mesmo jeito que a sétima menor. Ela confirma que você chegou. Por isso o I do jazz maior costuma ser maj7, não tríade pelada e não acorde de sétima dominante.

A cadência autêntica com tétrade

A cadência autêntica é a resolução do V no I. O ii entra antes como predominante: ele prepara o dominante em vez de deixar o V7 cair do céu. Quando as três tétrades aparecem em sequência, você tem o ii-V-I completo. Tira o ii e ainda existe cadência. Tira a sétima e a cadência fica mais pobre, porque some a nota que desce meio tom. Já volto nessas notas.

Notas Guia: a Terça e a Sétima que Caminham

Notas Guia: a Terça e a Sétima que Caminham

Nota guia, aqui, é terça ou sétima. A fundamental diz o endereço. A quinta justa, na maior parte das tétrades, só reforça. Quem conta a história da resolução é o par terça e sétima. Cabeça de bagre, se você move o braço inteiro e deixa esse par parado no lugar errado, o acorde trocou de nome e o ouvido não recebeu a cadência.

São duas linhas. Nenhuma delas é enfeite.

A primeira linha sai da sétima do ii e cai na terça do V. Em Dó: Dó é a sétima de Dm7, Si é a terça de G7. Dó desce meio tom e vira Si. Esse Si, no acorde seguinte, já é a sétima maior de Cmaj7. Ele fica.

A segunda linha sai da terça do ii e encontra a sétima do V na mesma nota. Fá é a terça de Dm7 e também a sétima de G7. Não precisa mudar de casa. No Cmaj7, essa sétima do dominante desce meio tom e vira Mi, a terça maior do acorde de repouso.

Resumo seco, pra você cantar enquanto toca:

  • Linha de cima, na nossa digitação: Dó, Si, Si.
  • Linha de baixo: Fá, Fá, Mi.

Dois movimentos de meio tom em três acordes. O resto pode repetir. É por isso que o acompanhamento de jazz não precisa de seis cordas gritando.

No braço, cordas Ré e Sol

Toca só essas duas cordas. O resto fica mudo. A corda Ré carrega a linha Fá, Fá, Mi. A corda Sol carrega Dó, Si, Si.

  • Dm7: corda Ré na casa 3 (Fá) e corda Sol na casa 5 (Dó).
  • G7: corda Ré continua na casa 3 (Fá) e corda Sol desce pra casa 4 (Si).
  • Cmaj7: corda Ré desce pra casa 2 (Mi) e corda Sol fica na casa 4 (Si).

Confere o nome de cada casa antes de confiar em mim. Corda Ré solta é Ré, casa 2 é Mi, casa 3 é Fá. Corda Sol solta é Sol, casa 4 é Si, casa 5 é Dó. Se a sua guitarra está afinada, o Dm7 desse par é Fá e Dó, terça e sétima. O G7 é Fá e Si, sétima e terça. O Cmaj7 é Mi e Si, terça e sétima. Não tem quinta aí. Não precisa.

O dedo que segura o Fá na casa 3 pode ficar plantado na troca para o G7. Só a corda Sol anda uma casa pra trás. Na troca para o Cmaj7, o Si fica plantado e a corda Ré anda uma casa pra trás. Se a mão inteira decola do braço entre um acorde e outro, você está tocando desenho, não está tocando caminho.

A mesma conta em Sol maior

A regra não mora em Dó. Em Sol maior o ii-V-I é Am7, D7, Gmaj7.

  • Am7: Sol na corda Ré, casa 5, e Dó na corda Sol, casa 5. Sétima e terça.
  • D7: a corda Ré desce pra casa 4 (Fá#) e a corda Sol continua na casa 5 (Dó). A sétima do ii caiu meio tom e virou a terça do V.
  • Gmaj7: a corda Ré fica na casa 4 (Fá#, agora sétima maior de Sol) e a corda Sol desce pra casa 4 (Si, terça maior de Sol).

De novo: um dedo anda, o outro espera, e no acorde seguinte eles trocam de papel. Quando esse gesto sair limpo em Dó e em Sol, transportar deixa de ser mistério. Você acha a terça e a sétima do ii e aplica a mesma descida de meio tom. O desenho é consequência.

Shell Voicing no Braço da Guitarra

Shell Voicing no Braço da Guitarra

Shell voicing, neste texto, é o acorde reduzido a três notas: fundamental, terça e sétima. A quinta justa fica de fora. O nome em inglês assusta menos quando você vê o que sobrou. Sobra o que identifica o acorde e o que resolve. Jazz de guitarra usa isso o tempo todo no acompanhamento, porque a mão troca rápido e o baixo, ou a mão esquerda de um pianista, já ocupa o grave.

Aqui vão três formas no mesmo ii-V-I de Dó. O “x” é corda muda. Não é corda opcional pra “deixar soar se quiser”.

  • Dm7: x, casa 5 na corda Lá (Ré), x na corda Ré, casa 5 na corda Sol (Dó), casa 6 na corda Si (Fá), x. Notas: Ré, Dó, Fá. Fundamental, sétima, terça.
  • G7: casa 3 na corda Mi grave (Sol), x na corda Lá, casa 3 na corda Ré (Fá), casa 4 na corda Sol (Si), x, x. Notas: Sol, Fá, Si. Fundamental, sétima, terça.
  • Cmaj7: x, casa 3 na corda Lá (Dó), casa 2 na corda Ré (Mi), casa 4 na corda Sol (Si), x, x. Notas: Dó, Mi, Si. Fundamental, terça, sétima.

A fundamental desses shells não caminha por meio tom. Ela pula de região, porque cada acorde ganhou uma corda grave diferente. Tudo bem. O miolo ainda obedece às guias: no Dm7 você tem Dó e Fá, no G7 você tem Fá e Si, no Cmaj7 você tem Mi e Si. Se o shell soar “solto” demais, volta nas duas cordas do capítulo anterior e confirma que a guia desceu. O problema quase nunca é a pestana. É a nota que ficou pra trás.

Quando soltar a tônica

Se um baixista está na fundamental, a guitarra pode ficar só no par de guias, Ré e Sol, como no exercício. Duas pessoas tocando Ré ao mesmo tempo engrossam, e em grupo pequeno isso come espaço. Por outro lado, se você está sozinho com a guitarra, sem baixo e sem piano, tira a fundamental e o acorde fica sem chão. Aí o shell com a tônica volta a valer.

A escolha é de arranjo, não de pureza. Ouve o grave. Se ninguém segura, você segura. Se alguém segura, sai da frente e conduz a sétima.

A quinta justa pode sair

Lá, dentro de Dm7, é quinta justa. Ré, dentro de G7, é quinta justa. Sol, dentro de Cmaj7, é quinta justa. Nenhuma dessas três muda o tipo do acorde. Por isso o shell sobrevive sem elas. A exceção vem já no ii-V-i menor: a quinta abaixada do meio-diminuto não é enfeite. Tira ela e você voltou pro menor com sétima comum. Não mistura as duas situações.

Se quiser a quinta de volta por gosto, encaixa depois que a guia estiver resolvendo. O post de inversões mostra como a mesma tétrade muda de empilhamento sem mudar de função. Usa isso pra achar outra oitava, não pra fugir da resolução.

No Baixo, Fundamental no Tempo 1

No Baixo, Fundamental no Tempo 1

A guitarra pode filosofar em duas cordas. O baixo, no tempo 1, fala o nome do acorde. Ré no Dm7, Sol no G7, Dó no Cmaj7. Se o tempo 1 vier na terça, o guitarrista e o ouvinte passam um compasso inteiro sem chão. Walking bonito sem fundamental no começo do acorde é enfeite em cima de um buraco.

O tempo 4, neste exercício, não é solo. É convite pro próximo acorde. A nota fica meio tom acima ou meio tom abaixo da fundamental que vem aí. No compasso de Dm7, a última semínima é Lá bemol, meio tom acima de Sol. No compasso de G7, a última é Ré bemol, meio tom acima de Dó. No último compasso, antes de voltar pro Ré, a última é Dó sustenido, meio tom abaixo de Ré. O ouvido aceita os dois lados, desde que a distância seja de um semitom e a nota seguinte seja a fundamental de verdade.

Os tempos 2 e 3 ficam em nota do acorde: terça, quinta ou sétima. Nada de escala inteira ainda. Quem quiser a versão longa dessa condução, o guia de walking bass já está no blog. Aqui a linha existe só pra servir o ii-V-I.

A linha em quatro compassos

Semínima, um acorde por compasso, dois compassos de Cmaj7 no final pra frase respirar. Andamento inicial: 60. As casas abaixo valem pra baixo de quatro cordas na afinação padrão, e também pra guitarra se você quiser tocar a linha nas cordas graves antes de acompanhar.

Compasso 1, Dm7

  • Tempo 1: Ré, corda Lá, casa 5.
  • Tempo 2: Fá, corda Ré, casa 3.
  • Tempo 3: Lá, corda Ré, casa 7.
  • Tempo 4: Lá bemol, corda Ré, casa 6.

Compasso 2, G7

  • Tempo 1: Sol, corda Ré, casa 5.
  • Tempo 2: Si, corda Sol, casa 4.
  • Tempo 3: Ré, corda Lá, casa 5.
  • Tempo 4: Ré bemol, corda Lá, casa 4.

Compasso 3, Cmaj7

  • Tempo 1: Dó, corda Lá, casa 3.
  • Tempo 2: Mi, corda Ré, casa 2.
  • Tempo 3: Sol, corda Ré, casa 5.
  • Tempo 4: Si, corda Sol, casa 4.

Compasso 4, Cmaj7, preparando a volta

  • Tempo 1: Dó, corda Lá, casa 3.
  • Tempo 2: Mi, corda Ré, casa 2.
  • Tempo 3: Sol, corda Ré, casa 5.
  • Tempo 4: Dó sustenido, corda Lá, casa 4.

O Dó sustenido sobe uma casa e cai no Ré da casa 5, de novo no Dm7. A volta fecha. Se a última nota do G7 não descer pro Dó, a cadência quebra mesmo com a guitarra certa. O grave é quem entrega a resolução na porta.

Ainda não é walking completo

Walking de verdade preenche os quatro tempos com uma mistura de nota do acorde, nota da escala e cromatismo, e ainda conversa com a bateria. Esta linha é um esqueleto: fundamental, nota do acorde, nota do acorde, aproximação. Toca ela limpa uma semana. Depois aumenta o andamento pra 72 e pra 90. Só então vale abrir o texto de walking e trocar um tempo 2 por uma passagem da escala. Inverter essa ordem produz baixo ocupado e cadência muda.

O Primo Menor e a Troca de Trítono

O Primo Menor e a Troca de Trítono

O ii-V-I maior tem um primo que já apareceu na bossa: o ii-V-i menor. A lógica é a mesma, o descanso é outro. Em Dó menor, o ii é Dm7(b5), notas Ré, Fá, Lá bemol, Dó. A quinta deixou de ser Lá e passou a ser Lá bemol. O V continua podendo ser G7, muitas vezes com nona bemol, que é de novo o Lá bemol. O i é Cm7: Dó, Mi bemol, Sol, Si bemol.

As guias do Dm7(b5) continuam Fá e Dó, iguais às do Dm7. A troca de personalidade está na quinta, não na terça. Por isso dá pra começar o menor com o mesmo par de cordas do maior. A divergência aparece na resolução.

No maior, o Si do G7 fica e vira sétima de Cmaj7, e só o Fá desce pra Mi. No menor, as duas guias descem meio tom. Fá, sétima do G7, cai em Mi bemol, terça de Cm7. Si, terça do G7, cai em Si bemol, sétima de Cm7. No braço, corda Ré casa 3 vai pra casa 1 (Mi bemol) e corda Sol casa 4 vai pra casa 3 (Si bemol). Dois dedos, um traste cada. Se você resolver um ii-V menor caindo em Mi natural, você chegou em acorde maior sem querer.

O clima da bossa em volta desse menor, com meio-diminuto e voicing fechado, fica no outro post. Aqui a meta é não confundir as duas chegadas.

Db7 no lugar de G7

A troca de trítono substitui o dominante por outro dominante três tons acima. Três tons acima de Sol é Ré bemol. O acorde novo é Db7: Ré bemol, Fá, Lá bemol, Dó bemol.

Olha o miolo. A terça de Db7 é Fá. A sétima menor é Dó bemol, que é a mesma tecla que Si. Fá e Si são exatamente a sétima e a terça de G7. O trítono não mudou. Mudou a fundamental, e com ela a quinta.

Na guitarra, o par Fá na casa 3 da corda Ré e Si na casa 4 da corda Sol serve pros dois acordes. Você não mexe a mão. Quem avisa que houve substituição é o baixo: em vez de Sol, ele toca Ré bemol. A progressão vira Dm7, Db7, Cmaj7. O grave desce Ré, Ré bemol, Dó, meio tom por vez. A guitarra resolve do mesmo jeito que resolvia o G7, com Fá caindo pra Mi e Si ficando.

Não faz essa troca em toda música no primeiro dia. Faz uma vez no exercício, com o baixo em Ré bemol na casa 4 da corda Lá, e compara com a versão em Sol. Se soou “mais jazz” e você não sabe dizer por quê, agora sabe: o trítono ficou, o grave cromático entrou. Tensão extra, tipo nona e décima terceira, é assunto do guia de acordes com tensão. A resolução do ii-V-I não depende delas.

Erros que Deixam o ii-V-I Quadrado

Erros que Deixam o ii-V-I Quadrado

O movimento é curto. Os vícios também. A maioria nasce de pressa ou de mistura com o post errado.

Quinta abaixada no campo maior. Dm7(b5) é o ii de um tom menor. Em Dó maior a quinta de Ré é Lá, justa. Abaixar pra Lá bemol porque “jazz é diminuto” empurra a música pro campo menor no meio de uma cadência maior. O ouvido percebe antes de você perceber.

Mão inteira pulando de desenho. Se na troca Dm7 para G7 os dois dedos das cordas Ré e Sol saem do braço, você perdeu o Fá comum. O acorde até pode estar certo na próxima casa, e mesmo assim a ligação soa teletransportada. Um dedo fica. O outro anda um traste.

Corda solta que o “x” mandou calar. No shell de Dm7, a corda Mi grave solta é Mi, e Mi não está em Ré, Fá, Lá, Dó. Vira lama embaixo da terça. No G7, a corda Lá solta é Lá, nona do Sol, e não é a nota deste exercício. Abafa com a carne do dedo que já está na casa ao lado. Shape com buraco no meio exige essa abafada, senão o shell vira outro acorde.

Baixo sem fundamental no tempo 1. Começar todo compasso na terça pode parecer sofisticado. No ii-V-I iniciante, só esconde o grau. A guia já está na guitarra. O baixo repete a guia e ninguém diz onde a cadência mora.

Andamento antes do ouvido. 140 bpm com colcheia swing não conserta um Fá que não desceu pra Mi. Sobe o metrônomo quando você conseguir cantar Dó, Si, Si e Fá, Fá, Mi sem olhar pro braço. Antes disso, velocidade é disfarce.

Nenhum desses erros te torna um fraude. Eles só mantêm o standard com cara de três acordes separados. Corrige um por vez, no andamento em que a nota falsa ainda dói.

Perguntas Frequentes

Perguntas Frequentes

ii-V-I e 2-5-1 são a mesma coisa?

São. Dois, cinco, um é o jeito falado. ii-V-I é o jeito escrito, com o tamanho da letra avisando menor ou maior. Se a cifra vier “II-V-I” tudo maiúsculo, desconfia: aí alguém pode estar falando de acordes maiores nos três graus, o que já é outra progressão. No jazz tonal comum, o segundo grau é menor.

Dá pra tocar só com tríade?

Dá pra reconhecer o caminho: Ré menor, Sol maior, Dó maior. A cadência ainda existe. O que some é a sétima, justamente a nota que desce meio tom no dominante. Sem o Fá do G7, você não tem o que cair no Mi do Cmaj7. Por isso standard escreve tétrade. Tríade é resumo. Tétrade é a frase.

Jazz obrigado a swingar?

Swing é jeito de dividir a colcheia, longa e curta, perto de uma tercina. Não é um acorde. O ii-V-I existe em colcheia reta, em bossa, em balada. O exercício deste post é em semínima, então o swing nem entra na conta ainda. Quando entrar, o texto de groove e feel ajuda a não deixar a colcheia dura. A harmonia não muda por causa disso.

Um acorde por compasso ou os dois primeiros no mesmo compasso?

As duas coisas existem. A versão limpa, pra aprender, é um acorde por compasso. A versão comprimida põe Dm7 nos tempos 1 e 2 e G7 nos tempos 3 e 4, com Cmaj7 no compasso seguinte. As guias andam do mesmo jeito, só que o Fá comum dura dois tempos em vez de quatro, e o Si chega na metade do compasso. Só comprime depois que a versão longa estiver clara. Comprimir bagunça não produz jazz. Produz bagunça mais rápida.

Serve no violão?

Serve. Casa 3 da corda Ré continua sendo Fá no violão de nylon. O que muda é a mão: a corda dói menos com ataque leve, e o shell de G7 na casa 3 pede abafamento caprichado por causa da ressonância. A nota não muda com o tampo do instrumento.

Exercício em Dó: Duas Cordas e Quatro Semínimas

Exercício em Dó: Duas Cordas e Quatro Semínimas

Metrônomo a 60. Quatro tempos por compasso. Quatro compassos. Grava no celular, porque a memória acha que desceu meio tom e a gravação mostra que não desceu.

Parte 1, só guitarra ou violão, cordas Ré e Sol.

  • Compasso 1: Fá na casa 3 e Dó na casa 5. Segura o compasso inteiro.
  • Compasso 2: Fá fica, Dó desce pra Si na casa 4.
  • Compassos 3 e 4: Fá desce pra Mi na casa 2, Si fica.

Canta a corda Sol: Dó, Si, Si. Canta a corda Ré: Fá, Fá, Mi. Se a voz não acompanha o dedo, o dedo está adiantado demais pro ouvido. Volta o andamento mental, não a desculpa.

Parte 2, shells, ainda sem baixo. Troca a cada compasso: Dm7 na forma x-5-x-5-6-x, G7 na forma 3-x-3-4-x-x, Cmaj7 na forma x-3-2-4-x-x, e o Cmaj7 de novo. Abafa cada “x”. Se sobrar corda solta, para e conserta antes de acelerar.

Parte 3, baixo na linha das quatro semínimas do capítulo do baixo, guitarra nas duas cordas da parte 1. Se você está sozinho, grava uma das mãos e toca a outra por cima. O teste é simples: no tempo 1 de cada compasso o grave diz Ré, Sol, Dó, Dó. No tempo 4 do primeiro compasso o grave diz Lá bemol e cai no Sol. No tempo 4 do segundo, Ré bemol cai no Dó.

Parte 4, uma troca só. Repete a parte 3, mas no segundo compasso o baixo toca Ré bemol, corda Lá casa 4, no tempo 1, em vez de Sol. A guitarra não muda o par Fá e Si. Você acabou de ouvir a substituição de trítono sem decorar um shape novo. Compara as duas gravações. A que desce Ré, Ré bemol, Dó é a versão com Db7. A que pula pra Sol é a versão com G7. As duas resolvem. Elas não são a mesma cor.

Sobe pra 72 só quando a parte 1 sair cinco vezes seguidas sem nota atrasada. Merda nenhuma de standard a 180 bpm vai te ensinar esse meio tom. O meio tom, devagar, ensina o standard.

Conclusão

O ii-V-I não é um mural de cifras. Em Dó, é Dm7 preparando, G7 empurrando com o trítono Si-Fá, e Cmaj7 recebendo esse Fá meio tom abaixo, no Mi, enquanto o Si fica. No braço, isso cabe em duas cordas. No baixo, cabe numa fundamental no tempo 1 e numa nota a meio tom do próximo acorde no tempo 4. O menor resolve com as duas guias descendo. O Db7 troca o grave e deixa o miolo do G7 quieto.

Quando essas trocas estiverem no ouvido, o standard deixa de ser lista e passa a ser endereço: o mesmo caminho, outro tom. A pressa pode esperar.

Se o próximo passo for ouvir função dentro de música pronta, a análise de Tempo Perdido mostra um ciclo curto desmontado por inteiro. Se a mão ainda briga com a tétrade, volta na fórmula dos acordes e monta Dm7, G7 e Cmaj7 longe do braço, no papel, antes de voltar pra casa 3. O blog está cheio de caminho. Este aqui era a porta do jazz.


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