Intervalos Musicais na Guitarra e no Baixo: Como Contar

Intervalos Musicais na Guitarra e no Baixo: Como Contar

Introdução

Porra, você já ouviu “isso aí é uma terça maior” e só fez cara de quem entendeu, né? Balançou a cabeça, olhou pro braço da guitarra e torceu pra ninguém perguntar qual nota é essa terça. Calma, ninguém aqui vai te julgar. Mas intervalo é a base de absolutamente tudo na teoria musical, e continuar fingindo que sabe é o jeito mais rápido de travar no resto.

A boa notícia é que intervalo é só a distância entre duas notas, e distância se conta. Além disso, o braço da guitarra e do baixo é todo feito de desenhos que se repetem, então depois que você pega o truque, acha qualquer intervalo em poucos segundos sem chutar casa por casa como um cabeça de bagre perdido.

Então vem comigo. Você vai aprender a contar o nome do intervalo sem errar, entender por que existe terça maior e terça menor, ver a tabela dos 12 intervalos em semitons, achar os desenhos principais no braço (com o baixo incluído) e sair daqui com um exercício de quatro rodadas a partir do Lá a 60 bpm.

O Que É um Intervalo (e Por Que Você Usa Todo Dia)

O Que É um Intervalo (e Por Que Você Usa Todo Dia)

Intervalo é a distância entre duas notas

Intervalo é a distância entre duas notas, ponto. Toca uma nota, toca outra, e o espaço entre elas é o intervalo. Pode ser uma depois da outra (intervalo melódico, como num riff) ou as duas juntas (intervalo harmônico, como num acorde).

Se você já passou pelo post sobre tom e semitom, já tem a unidade de medida: o semitom, que é uma casa no braço. O intervalo é só o jeito musical de dar nome a essa distância.

Todo acorde e toda escala são pilhas de intervalos

Aqui está o motivo de tanta gente tropeçar na teoria: ninguém avisa que acorde e escala são feitos de intervalos. Um acorde maior é uma terça maior com uma terça menor em cima. Uma escala maior é uma sequência de tons e semitons que, vista de outro ângulo, dá uma lista de intervalos a partir da primeira nota.

Por isso, quando você entende os intervalos, a fórmula dos acordes e a fórmula da escala maior deixam de ser uma lista de números soltos. Elas viram a mesma peça montada de jeitos diferentes.

Como Contar o Nome do Intervalo

Como Contar o Nome do Intervalo

A contagem inclui a nota de partida

Esse é o ponto em que todo mundo erra de primeira. Para dar o nome do intervalo, você conta as letras (as notas) do alfabeto musical, e a nota de onde você parte entra na conta como número 1. Ela não é o zero, caralho.

Em outras palavras, a mesma nota repetida é uma “primeira” (também chamada de uníssono). A nota seguinte da sequência é uma segunda. A outra é uma terça, e assim vai até a oitava, que é a oitava nota contando a de partida.

Do Dó ao Mi é uma terça

Vamos testar. Do Dó ao Mi: Dó (1), Ré (2), Mi (3). Terça. Do Dó ao Sol: Dó (1), Ré (2), Mi (3), Fá (4), Sol (5). Quinta. Do Dó ao Si: sétima. Fácil, né?

Só que o nome só diz “quantas letras”, e ainda falta saber o tamanho exato do intervalo. Por isso o nome vem sempre com um sobrenome: maior, menor, justa, aumentada ou diminuta. É isso que vem a seguir.

Qualidade: Justa, Maior, Menor, Aumentada e Diminuta

Qualidade: Justa, Maior, Menor, Aumentada e Diminuta

Intervalos justos: quarta, quinta e oitava

A quarta, a quinta e a oitava são chamadas de justas. Elas têm um tamanho de referência fixo: 5 semitons para a quarta justa, 7 para a quinta justa e 12 para a oitava justa. Se alguém mexer um semitom em qualquer uma delas, ela deixa de ser justa e vira aumentada (um semitom a mais) ou diminuta (um semitom a menos).

Além disso, a quinta justa é o intervalo mais estável da música. É dela que vem o power chord, e o post sobre power chord é, no fundo, uma aula de quinta justa disfarçada.

Intervalos maiores e menores: segunda, terça, sexta e sétima

Já a segunda, a terça, a sexta e a sétima vêm em dois tamanhos: maior e menor, e a diferença entre eles é exatamente um semitom. Terça menor tem 3 semitons, terça maior tem 4. É essa única casa que separa um acorde alegre de um acorde triste, então não é detalhe, é o que muda a emoção da música.

Se o intervalo fica um semitom maior que o maior, ele é aumentado. Se fica um semitom menor que o menor, é diminuto. Parece muita regra, mas é só uma escada de semitons com nomes.

A tabela dos 12 intervalos em semitons

Aqui está a tabela completa, com exemplos a partir do Dó. Vale imprimir, colar no estojo e ler até enjoar:

SemitonsIntervaloExemplo a partir do Dó
1Segunda menorDó a Ré♭
2Segunda maiorDó a Ré
3Terça menorDó a Mi♭
4Terça maiorDó a Mi
5Quarta justaDó a Fá
6TrítonoDó a Fá♯ (ou Sol♭)
7Quinta justaDó a Sol
8Sexta menorDó a Lá♭
9Sexta maiorDó a Lá
10Sétima menorDó a Si♭
11Sétima maiorDó a Si
12Oitava justaDó a Dó

O trítono: 6 semitons, dois nomes

O trítono tem esse nome porque equivale a três tons inteiros (3 vezes 2 semitons dá 6). Ele aparece com dois nomes: quarta aumentada ou quinta diminuta. No braço, os dois são exatamente a mesma distância. O que muda é a grafia: de Dó a Fá♯ você passa por quatro letras (Dó, Ré, Mi, Fá), então é quarta aumentada. De Dó a Sol♭ são cinco letras, então é quinta diminuta.

Esse intervalo é famoso pela tensão que cria, e aparece no acorde de sétima dominante, o coração do blues e do jazz. Por isso, não trata como bicho de sete cabeças: é só um intervalo com muita personalidade.

Intervalos no Braço da Guitarra e do Baixo

Intervalos no Braço da Guitarra e do Baixo

Agora a parte que importa pra quem tem um instrumento na mão. O braço da guitarra e do baixo é uma máquina de repetir desenhos. Basta aprender alguns pontos de referência e você deixa de contar casa por casa.

Quarta justa: cordas vizinhas na mesma casa

Na afinação padrão (Mi, Lá, Ré, Sol, Si, Mi na guitarra; Mi, Lá, Ré, Sol no baixo), cordas vizinhas estão afinadas em quartas justas. Então a quarta justa é a mais fácil de todas: pega uma nota e toca a mesma casa na corda de cima, mais aguda. Mi solto na 6ª corda e Lá solto na 5ª, por exemplo, são uma quarta justa.

Quinta justa: uma corda acima, duas casas à frente

Agora a quinta: parte de uma nota, sobe uma corda (em direção às mais agudas) e avança duas casas. Mi solto na 6ª corda e a casa 2 da 5ª corda (Si) formam uma quinta justa. É o desenho do power chord, que você já deve ter tocado mil vezes sem saber o nome.

Oitava: duas cordas acima, duas casas à frente

Para a oitava, pula duas cordas pra cima e avança duas casas. Mi solto na 6ª corda e a casa 2 da 4ª corda (Ré, que é o Mi) é uma oitava. No baixo, o Mi solto da 4ª corda e a casa 2 da 2ª corda (Ré, que dá Mi) fazem o mesmo desenho.

A exceção da corda Si na guitarra

Aqui entra o único truque chato da guitarra: entre a 3ª corda (Sol) e a 2ª corda (Si), a afinação não é em quarta, e sim em terça maior. Por isso, sempre que o desenho atravessa esse par de cordas, você soma uma casa à nota que fica na corda mais aguda. Sol solto e Si na casa 1 é uma quarta justa (Sol a Dó), e não mais “mesma casa”.

O baixo, aliás, não tem essa pegadinha. Como as quatro cordas são afinadas em quartas, os desenhos são os mesmos em qualquer lugar do braço. Baixista, ninguém esqueceu de você, e dessa vez você leva a vantagem.

Terça maior e terça menor a partir do Dó

Para sentir a diferença das terças, parte do Dó na 5ª corda, casa 3 (guitarra), ou na 3ª corda, casa 3 (baixo). Toca a casa 2 da corda de cima (Mi) e você tem uma terça maior. Agora toca a casa 1 da mesma corda (Mi♭), uma casa para trás, e você tem uma terça menor. É uma casa de diferença, só isso, e o clima da música muda inteiro.

Para completar, o trítono a partir do Dó cai na casa 4 da corda de cima, o Fá♯. Se você tocar Dó e Fá♯ juntos, vai sentir aquele incômodo gostoso, é o trítono funcionando.

A Escala Maior Como Régua de Intervalos

A Escala Maior Como Régua de Intervalos

Cada grau da escala maior é um intervalo a partir da tônica

A escala maior é uma excelente régua para conferir qualquer intervalo. Pega a escala de Dó maior (Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si, Dó) e olha a distância da primeira nota para cada uma das outras: Dó a Ré é segunda maior, Dó a Mi é terça maior, Dó a Fá é quarta justa, Dó a Sol é quinta justa, Dó a Lá é sexta maior e Dó a Si é sétima maior.

Esses seis intervalos (mais a oitava) aparecem na escala maior de qualquer tônica, sem exceção. Se você precisa revisar como montar a escala em qualquer tom, o guia da fórmula da escala maior resolve isso.

Como usar a escala maior para descobrir qualquer intervalo

O método é simples. Primeiro, imagina a escala maior da nota mais grave do par. Depois, vê se a nota de cima está nela. Se estiver, o intervalo é maior (ou justo, no caso de quarta, quinta e oitava). Se a nota de cima estiver um semitom abaixo da nota da escala, o intervalo é menor (ou diminuto, no caso dos justos).

Exemplo prático: do Lá ao Dó. A escala de Lá maior tem Dó♯ como terceira nota. O Dó natural está um semitom abaixo, então é uma terça menor. Resolvido em dois passos, sem tabela e sem pânico.

Intervalos no Ouvido: Referências Rápidas

Intervalos no Ouvido: Referências Rápidas

Segunda menor, quinta justa e terça menor em músicas famosas

Uma forma clássica de reconhecer intervalo de ouvido é associar cada um a um trecho de música que você já conhece, sempre com as notas subindo. Três exemplos populares: o tema do filme Tubarão começa com uma segunda menor (duas notas coladas, pura tensão), o tema de Star Wars abre com uma quinta justa e o riff de “Smoke on the Water” começa com uma terça menor.

Cada pessoa tem suas próprias referências, e o importante é escolher músicas que você sabe cantar de cabeça. Se quiser transformar isso em treino de verdade, o guia prático de treino de ouvido vai fundo nesse assunto.

Referência é muleta, não destino

Porém, vale um aviso: a música de referência é uma muleta. No começo ela ajuda, mas o objetivo é reconhecer a cor do intervalo sem precisar cantarolar o tema do filme na cabeça. Então use a referência até ficar natural, e depois deixa ela de lado.

Erros Comuns com Intervalos

Erros Comuns com Intervalos

Contar a nota de partida como zero

Já falei, mas é o erro número um e merece reforço. Se você conta Dó como zero e começa a contar o Ré como 1, vai chamar o Mi de segunda. Está errado, cabeça de bagre. Dó é 1, Ré é 2, Mi é 3. O nome do intervalo sempre começa a contar pela nota de partida.

Confundir terça maior com terça menor

Outro clássico: tocar o acorde sem prestar atenção se a terça é maior ou menor. É por isso que tem gente tocando Dó maior com cara de Dó menor e não entendendo por que a música ficou triste. Confere a casa: a terça maior tem 4 semitons, a menor tem 3, e uma casa muda tudo.

Memorizar o desenho sem saber o nome

Por fim, tem quem aprende o “desenho da quinta” e o “desenho da terça” e chega a tocar tudo certo, mas não sabe dizer o nome de nenhum. Aí, quando surge um desenho novo, trava. Sem o nome, o desenho é um truque isolado. Com o nome, vira ferramenta que você usa em qualquer tom, em qualquer corda e em qualquer instrumento.

Perguntas Frequentes

Perguntas Frequentes

Intervalo é o mesmo que grau?

Quase. O grau é a posição de uma nota dentro de uma escala (1º, 2º, 3º grau e assim por diante). Já o intervalo é a distância entre duas notas quaisquer, não importa se estão na mesma escala ou não. Por isso, dá para dizer que o grau é um intervalo medido sempre a partir da tônica.

O que é intervalo composto?

É o intervalo maior que uma oitava. A nona, por exemplo, é uma segunda mais uma oitava (14 semitons no caso da nona maior). A 11ª é uma quarta mais uma oitava, e a 13ª é uma sexta mais uma oitava. Esses nomes aparecem nos acordes com tensão, e o post sobre acordes com tensão (9, 11 e 13) mostra como usar.

O baixo usa os mesmos desenhos da guitarra?

Usa. O baixo é afinado em quartas justas (Mi, Lá, Ré, Sol), então os desenhos de quarta, quinta e oitava são exatamente os mesmos nas quatro cordas, sem a exceção da guitarra. Além disso, o baixista usa mais intervalos isolados (quinta, oitava, terça) do que acordes inteiros, então o domínio disso rende ainda mais.

Exercício: Intervalos a Partir do Lá em Quatro Rodadas a 60 bpm

Exercício: Intervalos a Partir do Lá em Quatro Rodadas a 60 bpm

Vamos usar o Lá como nota de partida, na casa 5 da 6ª corda (guitarra) ou na casa 5 da 4ª corda (baixo). Metrônomo em 60 bpm, uma nota por clique, nota de partida primeiro e o intervalo logo depois. Se o metrônomo ainda te dá nos nervos, o post sobre metrônomo na guitarra e no baixo resolve.

Rodada 1: quarta, quinta e oitava

Toca o Lá, depois a quarta justa (Ré, casa 5 da corda de cima), de volta ao Lá, depois a quinta justa (Mi, casa 7 da corda de cima) e de novo ao Lá, e por fim a oitava (Lá, casa 7 da corda duas acima). Fala o nome em voz alta enquanto toca. Repete até sair cinco vezes limpas.

Rodada 2: terça maior e terça menor

Do Lá, toca a terça menor (Dó, casa 3 da corda de cima), volta ao Lá e toca a terça maior (Dó♯, casa 4 da corda de cima). Repara no som: a menor é mais escura, a maior é mais aberta. Alterna dez vezes e tenta prever o som antes de tocar.

Rodada 3: os 12 intervalos em ordem

Agora sobe em ordem, sempre voltando ao Lá entre um e outro. Segunda menor (casa 6 da mesma corda), segunda maior (casa 7), terça menor (casa 3 da corda de cima), terça maior (casa 4), quarta justa (casa 5), trítono (casa 6), quinta justa (casa 7), sexta menor (casa 3 da corda duas acima), sexta maior (casa 4), sétima menor (casa 5), sétima maior (casa 6) e oitava (casa 7). Fala o nome de cada um. Se errar um, volta ao começo da lista.

Rodada 4: de olhos fechados

Fecha os olhos, pede para alguém tocar o Lá e uma segunda nota qualquer, ou grava você mesmo as notas em ordem aleatória e ouve depois sem olhar. Tenta dizer o nome do intervalo só de ouvido. Anota quais você acertou e quais confundiu, e repete amanhã só os que travaram.

Conclusão

Intervalo é distância entre duas notas, e distância se conta: a nota de partida é o 1, o nome diz quantas letras tem e a qualidade (justa, maior, menor, aumentada ou diminuta) diz o tamanho exato em semitons. Além disso, os desenhos no braço (quarta na mesma casa, quinta duas casas à frente, oitava duas cordas acima) fazem você achar qualquer intervalo sem chutar, e a escala maior serve de régua para conferir o resto.

Na prática, faz as quatro rodadas a partir do Lá, anota os intervalos que você confundiu e treina só esses amanhã. Porque quem sabe intervalo entende acorde, escala e riff com muito menos sofrimento.

Quer continuar a escalada? Passa pelo guia de notas no braço da guitarra, monta suas primeiras fórmulas dos acordes e confere o campo harmônico maior para ver todos esses intervalos virando acordes de verdade.